Quem somos?

A Sociedade Brasileira de Catálise irá, a cada semana, iniciando no dia 23 de junho de 2020, divulgar na sua página da internet um pouco da história de cada um de nossos pesquisadores. Acreditamos aque um pouco desta história e de como a catálise mudou a vida de nossos pesquisadores, será um incentivo para jovens pesquisadores. Resolvemos iniciar com os nossos pesquisadores Sócios Honorários. O primeiro será o Prof. Dr. Martin Schmal, que nos brindou também com um pouco da história da catálise no Brasil.

A Catálise no Brasil

Nos anos 60 a catálise no Brasil era pontual e restrita. Começou na realidade com o Prof. Remulo Ciola em São Paulo. Além de professor de Química na Universidade de São Paulo, trabalhava na primeira indústria de refino do país em Capuava. O Prof. Ciola também inaugurou o curso de catálise heterogênea na USP, sendo pioneiro no país. O seu laboratório montou com o que conseguiu levar da industria, quando o conheci em 1971, recem chegado da Alemanha. As pesquisas em catálise tambem se iniciaram no Centro de Pesquisas da Petrobrás (CENPES), no início dos anos 60, concentradas na área de petroquímica, apoiando principalmente o pólo das indústrias petroquímicas - “Petroquisa”.

PRONAQ – PRONAC

Logo no início dos anos 80, o Ministro do Planejamento Antonio Delfim Neto, criou um Programa Nacional de Química, cujo coordenador era o Prof. Fernando Gallembeck. Era um programa muito amplo visando o desenvolvimento da química no país, com programas separados: “Grandes Equipamentos”; “Processos e Produtos Naturais”; “Xistoquímica”; “Alcoolquímica”, ou seja ao total 12 programas e um deles era de “Catálise”. O Dr. Peter Seidl, coordenador do Projeto de Química no CNPq, procurou-me na época, para coordenar e formar um Grupo de Catálise no Brasil. Após uma série de reuniões em Brasília saiu o primeiro Programa de Química (PRONAQ). O Grupo de Catálise ficou com uma verba relativamente pequena, mas suficiente para comprar pequenos equipamentos, e material de consumo para cada laboratório. O grande desafio era formar os grupos, e fazer um projeto integrado em catálise, procurar novos grupos e coordenar tudo com pouco dinheiro. Procurei na época o Dr. Roger Frety e Dr.Yiu Lau Lam e elaboramos um plano. A idéia era prover estes laboratórios com um teste catalítico e cromatógrafo. Escolhemos os 10 primeiros laboratórios e programamos o plano com os recursos do CNPq, por um período de 24 meses. 

Houve diferentes tipos de problemas estruturais. Nem todos os laboratórios tinham liberdade de gerir o dinheiro e não foram aplicados nos laboratórios de destino causados pelo atraso e a inflação. Houve casos em que o dinheiro dava so para comprar a carcaça do cromatógrafo. Vários projetos foram reprogramados. No entanto, como era esperado, esse projeto andou e vários outros laboratórios se apresentaram no segundo plano. A verba do CNPq foi insuficiente e assim passamos a ter apoio integral da FINEP. A idéia foi a mesma, equipar os laboratórios com uma estrutura mínima de testes catalíticos e agora com equipamentos para caracterizações, como medidas de áreas superficiais, volume de poros e temas ligados a processos catalíticos. 

O Programa Nacional de Química (PRONAQ) foi encerrado logo depois, mas a subárea de catálise continuou e com o apoio da FINEP criamos um plano separado para a catálise, renomeado PRONAC, com C, sob minha coordenação. Mas, depois de 3 anos houve problemas causados pela alta inflação e foi interrompido. Vale ressaltar que este plano foi fundamental e serviu como pilar da catálise nas Universidades no Brasil, criando raízes nas diferentes regiões, principalmente, sul e sudeste e Nordeste. Estava formada a espinha dorsal da pesquisa em catálise no país, que teve reflexo nos diferentes eventos posteriores da SBCat.

Pesquisas nas Indústrias

No Brasil criaram-se 3 pólos petroquímicos importantes, sendo o primeiro e o mais antigo o Pólo Petroquímico de S.Paulo, da década de 60. Toda a tecnologia foi importada e os processos funcionaram, sendo o catalisador um segredo totalmente desconhecido pelos técnicos. Seguiam-se as recomendações dos fabricantes e não se questionava o catalisador, sua procedência ou performance.

Com o apoio da FINEP foram feitos novos investimentos em laboratórios de pesquisas nas empresas na decada de 70, além de Centros de Pesquisas, que deveriam apoiar as pesquisas nas indústrias. Foram feitos grandes investimentos e construídos novos laboratórios de pesquisas em várias indústrias do Pólo de Camaçari, como por exemplo: CIQUINE, COPENE, NITROCARBONO, NITROFÉRTIL, POLIALDEN, etc., preferencialmente para pesquisas em catálise e processos catalíticos, mas também para aparelhar toda a infra-estrutura analítica e plantas pilotos. Em meados de 80 foram montadas duas importantes fábricas de catalisadores no Brasil, ou seja, a Fábrica Carioca de Catalisadores (FCC) e a Newtechnos. A Oxiteno montou uma fábrica de catalisadores para produção de catalisadores em meados de 80, produzindo óxido de zinco e óxido de prata para consumo próprio e para venda.

No início de 1990 interrompeu-se bruscamente todos os projetos de pesquisas nas indústrias do país, com a eleição e posse do novo presidente em1992, Collor de Mello. Foi a fase fatal e mais frustrante do país. Todos os laboratórios nas indústrias fecharam. A PETROQUISA, holding da petroquímica no país foi fechada. Todas as pesquisas industriais e acadêmicas foram interrompidas e sucateadas. Permaneceu a FCC, a Newtechnos e parte da Oxiteno com recursos próprios mas também com grandes prejuízos. Destruiu-se a formação de pessoal qualificado. Fecharam-se todas as firmas de projetos e o país regrediu. Não houve mais apoio para pesquisa científica nas Universidades e conseqüentemente, sofreram todos os cursos de pós-graduação. Durante 10 anos não foram mais contratados jovens para os centros de pesquisas no país.

Sociedade Brasileira de Catálise (SBCat)

O ponto de partida para a criação da SBCat foi a organização do 6º Simpósio Ibero-Americano de Catálise em 1978. No simpósio anterior em Lisboa (1976), eu apresentei um trabalho e com surpresa a Assembléia propôs que eu levasse o próximo Simpósio para o Brasil. Praticamente, ninguém do Brasil até o momento havia participado com trabalho. Era muito temeroso trazê-lo para o Brasil e havia vários votos contrários, principalmente por causa da ditadura reinante no país. Assim, eu pedi um prazo de 6 meses para responder. O Prof. Portella, presidente do Simpósio, insistiu e apoiado por outros colegas procurei a Petrobrás, principal centro de pesquisas no país. O Dr. Leonardo Nogueira, achou temeroso realizar um evento dessa natureza no país. A universidade não tinha condições, tanto financeiras como estruturais, nem conhecimento em catálise e o que fazer?

A idéia foi procurar o Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), que já tinha experiência em organizar eventos de petróleo e petroquímica. Com o apoio do IBP, da Petrobrás e principalmente do CNPq para trazer alguns conferencistas internacionais (Prof. Boudard) realizamos o 6º Simpósio Iberoamericano de Catalise no Rio de Janeiro em 1978. O resultado foi extremamente positivo, pela presença de cerca de 200 pessoas, vindos da Espanha, Portugal, Argentina, México e também de outros países da Europa, como França e Itália. Logo após o Simpósio, fomos incentivados pelos líderes da comunidade ibero-americana e pelos colegas do simpósio a formar uma coletividade de catálise no Brasil. Como? O IBP aceitou e criou-se o subgrupo de Catálise na Comissão de Petroquímica, tendo como representantes as Universidades de cada região do país e representantes da indústria, Petrobras, Oxiteno, Degussa e Petroquisa, sendo o Dr. Leonardo Nogueira escolhido como coordenador. A comissão planejou as seguintes propostas:

(i) Organizar o seminário a cada dois anos;
(ii) Organizar cursos de catálise heterogênea e homogênea;
(iii) Fazer um livro com glossários catalíticos;
(iv) Fazer um levantamento da catálise nas indústrias;
(v) Organizar futuros simpósios Ibero-americanos de catálise;
(vi) Apoiar grupos nos fomentos à catálise no Brasil;
(vii) Criar regionais de catálise no Brasil.

Em 1996, quando realizamos o 8º Seminário de Catálise no Rio de Janeiro, um dos mais importantes, pela presença de conferencistas famosos, como o Prof. Gabor Somorjai e o Prof. Prins, entre outros internacionais, surgiu a primeira idéia de formar uma Sociedade Brasileira de Catálise. No 9 o Seminário de Catálise em S. Paulo, o número de participantes já era tão grande e o Prof. Dilson Cardoso propôs transformá-lo em Congresso Brasileiro de Catálise da qual fui o primeiro presidente. A criação da Sociedade Brasileira de Catálise deu um impulso sensacional nas relações com as universidades, as industrias e a comunidade internacional.

Um grande desafio foi entrar na nossa Sociedade Internacional de Catálise (IACS) (International Association of Catalysis Societies), que congrega todas as sociedades de países com certo grau de desenvolvimento em catálise. Houve grandes exigências, tais como, publicações constantes em revistas internacionais; interações com as indústrias; realização de congressos internos constantes e participação efetiva nos congressos internacionais. Mais uma vez, aceitamos o desafio e como Presidente da Sociedade e na primeira tentativa, no Congresso Internacional de Catálise em Granada em 2000, apresentamos a nossa proposta, que foi aceita incondicionalmente e com aplausos. Foi o feito mais importante da etapa internacional da Sociedade. Somos afiliados ao IACS desde 2000. A participação dos brasileiros neste Congresso foi muito positiva. Tivemos 26 participantes e um grande número de apresentações. Finalmente, associamo-nos também a Sociedade Ibero-Americana de Catálise (FISOCAT) em 2002.

Quem somos

28 09 SBCAT Noticia FabioBellotNoronhaEu iniciei o curso de Engenharia Química na Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1982. A minha história na catálise começou no último período do curso quando me inscrevi na disciplina optativa de catálise que era ministrada pelo Professor Martin Schmal. Na época ele me perguntou se eu queria fazer iniciação científica com ele no Programa de Engenharia Química (PEQ) da COPPE, mas avisou que não tinha bolsa! Foi assim que comecei a aprender sobre a preparação de catalisadores e algumas técnicas de caracterização disponíveis nos laboratórios 2 e 3 do porão do bloco H da COPPE. Como gostei muito dessa linha de pesquisa e o Schmal convencia qualquer um sobre as maravilhas da catálise, eu resolvi fazer o mestrado no PEQ/COPPE sob sua orientação e do pesquisador Roger Frety do Institut de Recherches sur la Catalyse/França, que passava um período no Brasil nessa época. Foi nesse período, estudando a aplicação de catalisadores bimetálicos na reação de hidrogenação, que fiz muitos amigos que hoje estão em diferentes universidades ensinando e trabalhando na área de catálise. 

Durante o meu mestrado eu me interessei bastante pela caracterização de catalisadores. Então, eu resolvi aprofundar e adquirir novos conhecimentos em diferentes técnicas de caraterização realizando o doutorado nessa área. Em função do meu contato com o Roger Frety, eu fui fazer um doutorado sanduíche no Institut de Recherches sur la Catalyse (IRC) em Lyon na França, e lá fiquei por quase dois anos sob a sua supervisão e do pesquisador Bernard Moraweck que viria influenciar muito os meus conhecimentos. Este período foi muito bom pois os laboratórios do IRC tinham os mais modernos equipamentos de caracterização de catalisadores, com várias técnicas realizando medidas in situ, o que não havia no Brasil naquela época. Bernard Moraweck era o responsável pela realização das medidas de espectroscopia de absorção de raios X (XAS) dos catalisadores que eram usados nos diferentes grupos de pesquisa do IRC.  Desta forma eu pude fazer um curso sobre esta técnica, aprender sobre o tratamento de dados e fazer medidas experimentais no já desativado laboratório sincrotron LURE em Orsay. Esta parceria com o Bernard continuaria ainda por muitos anos depois da minha defesa do doutorado, o que permitiu continuar usufruindo desta técnica até a entrada em funcionamento do sincrotron Brasileiro, o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS). Foi também durante o meu doutorado que tive as primeiras experiências com a orientação de alunos. Na época, o Schmal me convidou para coorientar informalmente dois alunos de mestrado que trabalhavam na minha linha da dissertação do mestrado.

Após a defesa do meu doutorado eu realizei um pós-doutorado na própria COPPE por um ano e meio. Particularmente, eu passei a usar o conhecimento que eu tinha adquirido sobre a técnica de XAS na França para realizar as medidas do grupo de catálise da COPPE, desde o início da operação do LNLS. Durante esse meu pós-doutorado eu acabei realizando um concurso para pesquisador no Instituto Nacional de Tecnologia (INT), no qual fui aprovado e comecei a trabalhar em 1996. A vaga era para trabalhar no laboratório de catalise do INT. Na época era um grande desafio já que o INT não tinha a moderna infraestrutura que tinha sido montada no recém criado NUCAT na COPPE. Ao mesmo tempo, eu comecei a coorientar dissertações de mestrado e teses de doutorado com o Prof. Luiz Eduardo Pizarro Borges no programa de pós-graduação em química do Instituto Militar de Engenharia (IME).

No início de 1999, o Prof. Daniel Resasco veio ao Brasil participar de um Workshop e me convidou para fazer um pós-doutorado com ele na Oklahoma University entre agosto de 1999 até fevereiro de 2000. Nesse meu pós-doutorado eu comecei a trabalhar em uma área completamente nova para mim e na qual estou até hoje: a reforma do metano com CO2, um tema que já estava atraindo muita atenção da comunidade cientifica devido aos problemas das emissões de gases do efeito estufa.

A partir de 2002 eu comecei a trabalhar mais ativamente com os temas hidrogênio e célula a combustível. Coincidentemente, o Governo Brasileiro iniciou uma série de atividades que acabaram na criação do Programa Brasileiro de Células a Combustível e Hidrogênio, do qual eu participei ativamente na sua elaboração. O programa era baseado em redes cooperativas que eram constituídas por universidades de todo o país. Eu coordenei juntamente com o Prof. Schmal a rede de produção de hidrogênio, que era constituída por 14 instituições de todo o país. Os vários projetos que realizei na linha de produção de hidrogênio e célula a combustível foram extremamente importantes pois permitiram a modernização do Laboratório de Catálise do INT.

Em 2010 eu fui convidado a fazer parte do corpo de docentes permanentes do Programa de pós-graduação em química do IME, o que foi não somente muito importante para a minha carreira, mas, também, extremamente gratificante pois também gosto muito do ensino.  Mais recentemente, em 2018, passei a integrar também o corpo de professores docentes do Programa de Engenharia de Biossistemas da Universidade Federal Fluminense. Durante toda a minha vida na catálise, eu participei na coorientação de dissertações e teses com colegas de diferentes universidades como Martin Schmal, Jose Luiz Fontes Monteiro, Lidia Chaloub Diegues, Vitor Teixeira da Silva, Fabio Souza Tonilo, Jose Carlos Pinto todos do PEQ /COPPE/UFRJ; Fabio Barboza Passos, Lisiane Veiga Mattos e Rita de Cássia Colman Simões da Universidade Federal Fluminense; Luiz Eduardo Pizarro Borges do IME; Carla Eponina Hori da Universidade Federal de Uberlândia, Soraia Brandao da Universidade Federal da Bahia, Jose Maria Correa Bueno da Universidade Federal de São Carlos.

Mais recentemente, eu comecei a trabalhar bastante no tema conversão de biomassa lignocelulósica através de diferentes tecnologias como a gaseificação, pirolise e fracionamento. Em função desta linha de pesquisa, eu acabei aceitando um novo desafio, e atualmente sou professor visitante na Ecole Centrale de Lille desde 2019.

Durante todo este meu percurso na catálise, eu sempre procurei estabelecer parcerias com professores brasileiros e estrangeiros pois acho muito gratificante a troca de conhecimentos e de experiências que temos nestas cooperações. Neste sentido, eu poderia citar como colaboradores estrangeiros: Daniel Resasco (Oklahoma University), Gary Jacobs (The University of Texas at San Antonio), Burtron H. Davis (The University of Kentucky), Xenophon Verykios (University of Patras), Krijn de Jong (University of Utrecht), Harry Bitter (University of Wageningen), Ted Oyama (Universidade de Toquio), Eduardo Lombardo, Laura Cornaglia e John Munera (INCAPE), Robert Farrauto (Columbia University) e Heick Ehrich (Leibniz Institute for Catalysis), Cesar Steil (Université de Grenoble), Nicolas Bion, Françoise Epron, Frederic Richard (Université de Poitiers), Sebastien Paul e Robert Wojcieszak (Centrale Lille), Patrick Gelin e Francisco J. Cadete Santos Aires (Institut de Recherches sur la Catalyse), Andras  Erdohelyi (University of Szeged), Johannes Lercher (PNNL).

Eu também venho participando dos congressos nacionais de catálise, incialmente organizados pelo Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP), começando no 4º Seminário de Catálise organizado pelo Arnaldo Faro em Canela (1987), e depois da criação da Sociedade Brasileira de Catálise (SBCat), na série dos Congressos Brasileiros de Catálise a partir de 1997 em Águas de Lindoia. Em vários destes seminários/congressos participei das comissões organizadora ou científica, sendo o presidente da comissão científica do 15º Congresso Brasileiro de Catálise realizado em Armação de Búzios em 2009. Com relação a SBCat, eu fui supervisor da regional 2 (Rio/Minas) em dois períodos (2007-2009; 2009-2011). Por duas vezes, eu fui agraciado pela SBCat com dois prêmios: Jovem Pesquisador em Catálise (2001) no 11º Congresso Brasileiro de Catálise em Bento Gonçalves e Pesquisador em Catálise (2011) no 16º Congresso Brasileiro de Catálise em Campos do Jordão.

Já se passaram muitos anos desde que comecei a trabalhar na área de catálise. Devo muito do que realizei a colegas e alunos com quem trabalhei ao longo desses anos. Vivi muitas crises econômicas, mas nunca passei por um período tão conturbado como nessa crise sanitária! Mas este é um lado fascinante da catálise pois mesmo nessa situação, nós podemos tentar contribuir com o que aprendemos para ajudar a ter um mundo melhor.

21 09 sbcat Noticia ProfWagnerA minha trajetória profissional teve início na Refinaria de Paulínia da PETROBRAS, como técnico de laboratório de 1983 a 1988. Concluí o Bacharelado em Química com Atribuições Tecnológicas na UNICAMP em 1990 (Licenciatura em 1991). Durante a minha graduação atuei como aluno de Iniciação Científica daquele que seria o grande responsável pela minha formação científica, o Prof. Dr. Ulf Schuchardt (que viria a ser o meu orientador de mestrado e de doutorado), como bolsista financiado pela empresa Nitrocarbono S/A e, posteriormente, pela FAPESP. Em 1992 finalizei o mestrado (em catálise homogênea – processos oxidativos biomiméticos) e, em 1997, o doutorado (catálise heterogênea – peneiras moleculares). Este trabalho foi pioneiro no país e entre os primeiros no mundo a tratar dos métodos de síntese de peneiras moleculares mesoporosas do tipo MCM-41 (uma colaboração com o Prof. Roger Sheldon, Delft University of Technology, Holanda).

A experiência didática teve início em 1988, como professor do ensino médio público e privado. No período de 1994 a 2008 atuei na PUC-Campinas, onde formei o primeiro grupo de pesquisa na área de química da universidade. Sem acesso a programas de pós-graduação, neste período orientei 55 alunos de IC, com auxílio financeiro principalmente da FAPESP (JP e auxílios regulares) em pesquisas das áreas de adsorção e de catálise. As primeiras orientações de pós-graduação ocorreram após credenciamento na Faculdade de Engenharia Química da UNICAMP, numa parceria com a Profa. Dra. Elizabete Jordão.

Desde 2008 atuo na Universidade Federal do ABC. Temos um grupo de pesquisa com forte atuação na área de catálise homogênea e heterogênea e também na investigação de processos de adsorção. Os principais projetos em andamento estão relacionados a produção de catalisadores, conversão de biomassa e tratamento de efluentes por adsorção seletiva. Na UFABC orientei 20 dissertações e 5 teses, além da supervisão de 3 pós-doutoramentos, sendo a grande maioria dos trabalhos na área de catálise heterogênea. Ex-alunos mantiveram sua atuação na área de catálise, como profissionais da indústria química ou docentes do ensino superior (UNIFESP, UFGD). Também participo do Núcleo de Tecnologias Sustentáveis, que reúne 10 pesquisadores de distintas áreas, com o objetivo de propiciar o desenvolvimento e aperfeiçoamento de processos que utilizam biomassa, resíduos ou rejeitos industriais para a possível criação de iniciativas de inovação e de novos negócios. Na gestão, já atuei como Coordenador do Bacharelado em Química, do Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia/Química e do Doutorado Acadêmico Industrial (DAI), e também como Pró-Reitor Adjunto de Pós-Graduação. Atualmente, sou o Vice-Reitor da Universidade.

Na pesquisa, temos diversas colaborações internacionais: Prof. Georgiy Shul’pin (Rússia), Profa. Isabel Fonseca, Prof. Armando Pombeiro, Dra. Marina Kirillova e Prof. Alexander Kirillov (Portugal), Prof. Jorge Sepúlveda Flores (Argentina), Prof. Ryong Ryoo (Coréia do Sul), Prof. Pierre Dixneuf e Dr. Christian Bruneau (França), Prof. Vladislav Sadykov (Rússia) e com o Prof. Paolo P. Pescarmona (Holanda). O Prof. Pescarmona atuava no “Centre for Surface Chemistry and Catalysis” da Katholieke Universiteit Leuven, na Bélgica, onde realizei um estágio em 2012. No Brasil, destaco colaboração com diversos pesquisadores do IPEN, UNIFESP, UNICAMP, UFAL, UFGD, UFSCar e USP-São Carlos. Todos os alunos de doutorado sob minha orientação realizaram parte de seus trabalhos nos laboratórios dos nossos colaboradores no exterior. Financiamentos da FAPESP, do CNPq, da CAPES e da Finep tem permitido o desenvolvimento dos projetos e a manutenção dos laboratórios. Em 2016 recebi o Prêmio UFABC de Inovação.

Finalmente, mas não menos importante, tive o enorme prazer de compartilhar a Diretoria da Sociedade Brasileira de Catálise nos biênios 2015-2017 e 2017-2019 com o saudoso professor e amigo Victor Teixeira da Silva.

Catálise no Brasil, também faz parte da minha vida!

ª02 10 SBCAT Noticia SilvaClaudiaNasci em Fortaleza-CE em 1967 e vim para Brasília-DF em 1970. Iniciei o curso de Psicologia na Universidade de Brasília (UnB) em 1984 e após cursar três disciplinas do curso de Química, decidi mudar de curso. Me graduei no Bacharelado em Química em 1989, iniciando o mestrado em Química sob a orientação do Prof. David Geeverghese. Durante a graduação e o mestrado participei de congressos da SBPC e da SBQ e o encanto pela pesquisa aumentou. Logo após a defesa do mestrado (1992) e já casada com José Dias (Químico), aceitei o convite de uma colega da UnB para atuar como colaboradora na análise de processos de licenciamento de pesticidas no IBAMA. Após um breve período de experiência tive certeza de que gostaria de seguir a carreira acadêmica. Assim, me preparei para um concurso público para provimento de vagas para Professor no Departamento de Química da UnB no primeiro semestre de 1993 e fui aprovada.

Com o incentivo de alguns professores do IQ, o sonho e a iniciativa de cursar meu doutorado no exterior, de imediato submeti projetos para CNPq e CAPES para realização de doutorado na University of Florida - USA sob a orientação do Prof. Russell S. Drago. Iniciei o doutorado em 1994 e durante quatro anos tive a oportunidade de conviver e aprender muito em um grupo de pesquisa dinâmico. Fui então apresentada ao universo de pesquisas em Catálise, me apaixonei de imediato e segui minha carreira de pesquisa.

Minha primeira linha de pesquisa foi o estudo da acidez de zeólitas e o encapsulamento de complexos metálicos. Participei das conferências anuais que o Prof. Drago organizava (Florida Catalysis Conference e Florida Environmental Conference). Nas referidas conferências tive a oportunidade de conhecer pesquisadores renomados como o Prof. Avelino Corma (Universidade de Valencia, Espanha) e Rutger Van Santen (Eindhoven, Holanda). O contato com estes e outros pesquisadores de alto nível em vários eventos ao longo de minha carreira foram bastante estimulantes para o desenvolvimento de minhas pesquisas. Defendi minha tese de doutorado em novembro de 1997 e tive a tristeza de receber a notícia do falecimento do Prof. Drago na véspera de voltar ao Brasil (dezembro de 1997). Apesar do choque, eu queria retornar ao Brasil e iniciar uma nova fase na minha vida profissional.

De volta a UnB em 1998, eu e o Prof. José Dias criamos o Grupo de Catálise Química do IQ/UnB e iniciamos nossas pesquisas nessa área, ainda inexistente na universidade. Muitos foram os desafios por falta de infraestrutura adequadas numa área tão multidisciplinar. Com bastante esforço e persistência conseguimos ganhar os primeiros projetos de pesquisa a partir de 2005 (CNPq, Capes, Petrobras e FAP-DF). Novas linhas de pesquisas foram surgindo como adsorção de hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (parceria com o Prof. Andres Campiglia, University of Central Florida), reações multicomponentes e desidratação de álcoois.

O acolhimento recebido dos Prof. Luiz Pontes, que nos introduziu na Regional 1 da SBCat, bem como o carinho de diversos membros desta regional, Prof. Victor Teixeira, Prof. Yiu Lam, Profa. Sibele Pergher, Profa. Katia Gusmão e tantos outros representam muito. Por fim, nada do que foi realizado seria possível sem a presença e compromisso dos estudantes que tive e tenho de IC, mestrado e doutorado. Eles são realmente o motor de propulsão de um grupo de pesquisa (família LabCat/UnB) e que fazem muito com que os projetos virem realidade pela qualidade na execução dos experimentos. Assim, não importa as crises e dificuldades que enfrentamos ao longo de toda nossa vida, se há um sonho e um objetivo que nos direciona, vale a pena tentar exaustivamente.

Nasci na Alemanha e chegamos ao Brasil em 1939 como refugiados em Fevereiro de 1939. Graduei-me em Engenharia Química, em 1964, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP). Fiz o curso de pós-graduação em Engenharia Química na COPPE Fiz o meu doutorado na Alemanha, na Universidade TU Berlin onde aprendi quimica, tanto teorica como pratica Ao retornar, vim para a Coppe, onde trabalhei mais de 40 anos e com muito sucesso. Confira o CV Lattes aqui

Os desafios

Como pesquisador e docente da COPPE na Universidade Federal do Rio de Janeiro (1971), comecei a desenvolver temas ligados a energia, processos e projetos com a indústria que foram muito importantes para definir o futuro. Cheguei à conclusão de que, do ponto de vista macroscópico, poderia pouco acrescentar ao que já existia, pois tudo já estava praticamente resolvido e aplicado. Assim, procurei estudar e pesquisar temas mais fundamentais ligados a ciência. Mas o maior desafio era que não havia laboratórios disponíveis e como seria possível fazer um trabalho de de alto nível? Na  época do mestrado (1966) nem havia computador no Rio de Janeiro. Havia um único computador 1110 no ITA, em São José dos Campos. Foi para lá que eu viajava todo fim de semana a fim de fazer os cálculos de dissrtação que terminei com sucesso, sendo o meu primeiro trabalho. Na Alemanha tive que revalidar meu diploma de Engenharia, (Dipl. Ing) na Teshnische Universitat Berlin (TU Berlin) em 1968. Terminei o doutorado no final de 1970.

Por que a COPPE? Teria que começar do zero, ensinar sem nenhuma experiência no assunto, sem espaço para laboratório, sem equipamentos, sem dinheiro, sem projeto ou um programa de pesquisa definido, nada, só a esperança. Era um desafio? A situação na época era a mesma em todas as universidades. Perguntei-me várias vezes por que escolhi trabalhar em pesquisa e ensino, sem experiência na indústria, sem o domínio de uma área.

Evidentemente, comecei a enfrentar a situação para realizar o meu sonho. Escolhi uma área que ainda não era muito conhecida nas universidades, mas tinha grande aplicação na indústria. Entendi que a química de um processo é básica para energia, meio ambiente, transformação de produtos naturais, alimentos, etc., mas poucos conheciam os fundamentos e em particular a cinética da reação que ocorre num processo industrial, e era e é exatamente esse o segredo dos detentores de processos em fábricas nacionais, praticamente todos do exterior. Isso é o que chamamos de conhecimento, “know-how”, que as indústrias e os inventores guardam e pelo qual cobram caro. A maioria dos processos está nas patentes, mas os detalhes, não. Consequentemente, dependemos dos inventores aqui ou lá fora.

Mas, para começar, eu precisava enfrentar o primeiro desafio, montando um laboratório. Foi o início, partindo do nada. Não havia mais espaço para montar outro laboratório no imenso Bloco I, e tivemos que procurar outras alternativas. No início de 1975, construímos o laboratório no porão do Bloco H. Não havia infraestrutura.

Mas também não tinhamos unidades e equipamentos? Felizmente, a COPPE tinha uma oficina mecânica onde trabalhavam mecânicos de excelente qualidade e onde construímos as unidades de alta e baixa pressão. Os projetos fazíamos junto com os alunos e técnicos. Aos poucos montamos as unidades.

Fomos pioneiros nos projetos com as industrias. Desenvolvemos catalisadores, estudamos processos como ativação, desativação e regeneração de catalisadores alem de testes de longa duração com catalisadores industriais e novos catalisadores para a Ciquini, Nitrocarbono, Petrobras, Petrosix, e Copesul, Polibuteno, Ultra, PQU, FCC e várias outras outras empresas na decada de 80, através da Coppetec. Construimos  reatores continuos de alta e baixa pressão nas oficinas da Coppe. Foi um sucesso, e conseguimos nos destacar entre os  laboratorios existentes e interagir com a indústria. Isso foi importante para nós, que éramos conhecidos como “teóricos”, mudando radicalmente o conceito da COPPE.

Em 1985 a FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos) sugeriu criar um centro específico de catálise para pesquisa e apoio às indústrias, evitando-se dispersão e a duplicação de esforços e recursos numa área científico-tecnológica reconhecidamente das mais demandantes por equipamentos de caracterização específicos. Para potencializar a aplicação de recursos no desenvolvimento de pesquisas que auxiliassem a busca da autonomia técnico-científica do país em catálise, a FINEP nos convidou, na segunda metade da década de 80, para preparar um projeto e montar um centro de catálise. O Núcleo de Catálise (NUCAT) foi então criado, em 1991. Constitui-se num centro de excelência para o desenvolvimento de pesquisas fundamentais e aplicadas, visando formar pessoal altamente qualificado em diferentes áreas e técnicas, prestar serviços relevantes à indústria química nacional e servir de apoio a grupos universitários e centros de pesquisa nacionais.

Infelizmente, no inicio da decada de 90 na era Collor, toda a industria petroquimica parou suas atividades de pesquisas, com grande prejuizo para as nossas atividades. Por outro lado, como novo desafio o  NUCAT criou novos projetos de pesquisas e novas areas , como  nanotecnologia, biomassa e fotocatálise e processos in situ, que possibilitaram avanços científicos e tecnologicos, e principalmente com a formação de pessoal, que foram modelos para a ciencia e tecnologia no páis. A partir de 2003 contamos com grande apoio do MCT e principalmente da Petrobrás, com projetos específicos, como refino de petróleo, alcooquimica e geração de hidrogenio e nanotecnologia. Foram importantes as colaborações de J.L.F.Monteiro, Lydia C.Deigues, Neuman S.Resende, Vera Salim, Carlos A.Perez, M.A.Baldanza, Ayr, Macarrão, Sidnei, Célio, Leila,Anacleto e outros.

Atualmente sou professor emérito da UFRJ e professor colaborador visitante da Poli - USP desde 2014 a convite dos Profs. Oller e Giudici.

Recebi os prêmios mais importantes internacionais da Fundação Humbolt-Research Award 2003 (Alemanha) e da Ciência e Tecnologia do  México 2004 e membro das Academias Brasileiras de Ciências 1998 e de Engenharia 2010 e medalha da Max Planck Fundation em 2014 (CVLattes) e prêmio de excelencia em catálise Roberto de Souza em 2017.

Formei mais de 130 mestrandos e doutorandos de destaque, citando E. Fallabela, Fabio Passos, Fabio Noronha, Victor T. da Silva entre outros.

 

14 10 SBCAT 2020 quemsomos NotíciaRoberto Fernando de Souza nasceu em Caxias do Sul, em 14 de novembro de 1958. Concluiu a graduação em Engenharia Química na Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 1981. Foi durante a sua graduação que o Roberto teve seus primeiros contatos com a pesquisa e com a área da Catálise, sendo estudante de iniciação científica da Profa. Yeda Pinheiro Dick na área da catálise enzimática. Ainda na UFRGS, obteve o título de Mestre em Engenharia de Minas, Metalúrgica e de Materiais em 1983 sob orientação dos Professores Adalberto Vasquez e Yeda Pinheiro Dick. O Instituto de Química tendo como objetivo criar uma linha de pesquisa em Catálise, devido à recente instalação do Polo Petroquímico, elegeu, junto com uma comissão externa que estabeleceu metas para o futuro do Instituto de Química, que Roberto fosse fazer estudos de doutorado na França. Defendeu sua Tese em Catálise pela Université Paul Sabatier, Toulouse, França, em 1987, sob a orientação do Dr. Igor Tkatchenko. Com a Tese veio o primeiro de muitos reconhecimentos de excelência: O Prêmio de melhor Tese, CNRS - França.

Foi aprovado no Concurso para ser Professor do Departamento de Físico-Química, Instituto de Química, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 1986, antes mesmo de concluir seu doutorado.

Ao retornar ao Brasil, em 1987, trouxe com ele, a também Doutora em Catálise, Profa. Michèle Oberson de Souza, sua esposa. Juntos construíram uma linda família biológica (Maxime e Pierre) e outra grande família científica (da qual me orgulho muito de fazer parte). O então Prof. Roberto recebeu o laboratório onde é atualmente o Laboratório de Reatividade e Catálise (LRC) vazio e nele instalou uma excelente estrutura para Pesquisa em Catálise. Formou diversos Mestres e Doutores, sendo estes, atualmente, Professores/Pesquisadores distribuídos pelo Brasil e também no exterior.

Em 1994, realizou um pós-doutorado no Instituto Francês do Petróleo, Rueil-Malmaison, França, sob supervisão o Dr. Yves Chauvin, iniciando suas Pesquisas em Líquidos Iônicos.

Foi co-fundador e Presidente da Sociedade Brasileira de Catálise, Presidente da Câmara de Pós-Graduação da UFRGS, Diretor do Instituto de Química da UFRGS e Coordenador do programa de Pós-Graduação em Ciência dos Materiais da UFRGS. Era Professor Titular na UFRGS, pesquisador IA do CNPq e Membro Titular da Academia Brasileira de Ciências.

Como reconhecimento de suas contribuições para a Catálise, a SBCat criou um prêmio com o seu nome, um prêmio de reconhecimento da excelência na pesquisa no desenvolvimento de novos catalisadores e processos catalíticos, além da excelência na formação de recursos humanos na área. O texto a seguir foi extraído da descrição do Prêmio:

“Roberto foi um entusiasta da catálise no país, tendo participado ativamente da criação da Sociedade Brasileira de Catálise e sido seu Presidente por dois mandatos consecutivos além de ter sido o responsável de diversas edições de CBCat, nas quais exercia com êxito suas capacidades em congregar os membros de nossa Sociedade. Porém, acima de tudo, Roberto foi um dos principais cientistas em catálise no Brasil ao seu tempo, tendo sido pioneiro no uso de líquidos iônicos, assim como contribuído para a formação de um núcleo de catálise no sul do país, sobretudo com foco na catálise homogênea voltada para processos de oligomerização e polimerização e tendo orientado suas últimas linhas de pesquisa na geração de energias alternativas e na área da química verde.

Roberto se destacou pela liderança e inovação na pesquisa, sabendo encontrar interfaces eficientes com parceiros industriais, tendo publicado inúmeros artigos em revistas de alto impacto, orientado diversos alunos de pós-graduação, muitos dos quais seguem seu legado científico na área, além de ter atuação destacada na área administrativa, como Diretor do Instituto de Química da UFRGS, coordenador de numerosas comissões da UFRGS e presidente da SBCat, entre outras atividades.”

Roberto deixou precocemente sua família e seu grupo (LRC), em 29 de novembro 2013. No que se refere ao LRC posso relatar aqui que no dia seguinte a sua despedida, apesar de estarmos todos arrasados, fui para o IQ e encontrei os alunos do grupo, juntos, no Laboratório. Eles me disseram que estavam lá fazendo as reações que tinham combinado com o Roberto pois acreditavam que é o que ele esperaria deles. Naquele momento soube que o LRC, apesar de que nunca mais seria exatamente o mesmo, sobreviveria!

Katia Bernardo Gusmão
Aluna, Colega e Amiga do Roberto Fernando de Souza

29 06 sbcat Noticia ProfLeonardoA Catálise e Eu.

Meu interesse pela química foi despertado cedo quando aluno do curso científico em 1947 do colégio Salesianos em Niterói, RJ. Fiquei o responsável pelo laboratório com os instrumentos e reagentes lá existentes. Iniciei em 1950 o curso de química industrial na Escola Nacional de Química (ENQ) da antiga Universidade do Brasil. Logo após o curso foi alterado para Engenharia Química com mudanças no currículo e adição de novas matérias.

Em 1952 comecei a trabalhar no Departamento Nacional da Produção Mineral (DNPM) que ficava na mesma área da ENQ, o que foi um fantástico privilégio. Entre as minhas atribuições manter organizado o laboratório para que os professores estrangeiros desenvolvessem seus trabalhos que objetivavam recuperar produtos químicos valiosos das águas-mãe das salinas da região de Cabo Frio, RJ. Pude usufruir do grande conhecimento daqueles cientistas vindos da Tchecoslováquia: H. Zocher (pioneiro na área de cristais líquidos), P. Kubelka, C. Torok. Naquela época o DNPM mantinha também nos seus quadros o professor Feigl.

Como aluno da ENQ, junto com mais quatro colegas, tentamos por em operação uma unidade piloto de destilação de grandes dimensões. Ao fim do curso três ofertas de trabalho me foram oferecidas:

  • Permanecer na ENQ como assistente na cadeira de física industrial;
  • Tomar posse por concurso na DNPM como engenheiro tecnólogo;
  • Trabalhar no curso de refinação de petróleo da Petrobras visando, num futuro compor o corpo docente do Centro de Aperfeiçoamento e Pesquisa de Petróleo (CENAP).

A idéia da criação do CENAP foi do engenheiro Antônio Seabra Moggi e representou algo único no país com uma visão de longo prazo. Todos os professores eram estrangeiros com larga experiência na área e seriam substituídos por seus assistentes brasileiros ao longo do tempo. Com uma organização excelente, foi coordenada pelo Prof. Ford Campell Willians com grande maestria e sabedoria por muitos anos. Em 1957 o CENAP teve suas atividades ampliadas para envolver pesquisas na área de petróleo. Grandes esforços foram despendidos na criação do novo centro de pesquisas que redundou na criação do CENPES na Ilha do Fundão junto à UFRJ.

Buscando aprofundar os conhecimentos de seus técnicos nas áreas de pesquisa de interesse da Petrobras (catálise), fui estudar nos EUA com o professor Herman Pines (profundo conhecedor de catálise e um magnífico ser humano, mais uma vez fui um privilegiado) na Northwestern University, naquela época o melhor centro desses estudos nos EUA. Obtive o Ms. E PhD em química fazendo uma tese sobre a aromatização do n-heptano 1 C₁₄. Parte dos trabalhos foi patrocinado pela comissão de energia atômica dos EUA.

De volta ao Brasil em 1970 ministrei cursos de pós graduação na área de catálise ao mesmo tempo em que desenvolvia atividades junto ao Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP) na Comissão de Catálise com reuniões e organização dos seminários de catálise: o germe para a criação do SBCat em 1998.

Em 1973 foi montado um Curso Avançado em Processos Catalíticos na UFRJ patrocinado pela Petrobras. A coordenação ficou a cargo do prof. Claudio Costa Neto da UFRJ. A parte inicial foi ministrada por brasileiros e na parte final trouxemos três cientistas americanos: Herman Pines, e Robert Burwell Jr. da Northwestern University e Michel Boudart da Stanford University. Os professores estrangeiros ministraram cursos com extensão de três meses cada.

Devo ressaltar que tive o privilégio de conviver com profissionais dos mais altos padrões científicos e humanos. No CENPES externei minha admiração várias vezes por todos que comigo trabalhavam e que em todos os níveis eram os melhores do Brasil. Citar alguns nomes implicaria em incorrer em grande erro de esquecimento de algum e todos foram igualmente importantes. A vocês meus sinceros agradecimentos.

Aposentei-me no CENPES em 1990, mas continuei na catálise por quase 10 anos, sendo por duas vezes professor convidado pela UFRJ – Departamento de Físico-Química.

06 07 sbcat ProfLan noticiaOs eventos que marcaram minha vida profissional são repletos de decisões, oportunidades e sorte. Sorte, especialmente, em encontrar mentores.

A Universidade de Hong Kong, não tem curso de Engenharia Química. Estudei Química e Matemática acreditando poder trabalhar em química aplicada. A Matemática abstrata ensinou-me bem a raciocinar. Em 1972, escolhi a catálise entre os vários cursos de pós-graduação em química aplicada: indústria de papel, geoquímica etc. Assim, tive minha primeira oportunidade e sorte. Fui para Universidade de Stanford sendo orientado pelo Prof. Michel Boudart, pioneiro na área de catálise. Durante doutoramento fiquei como o primeiro estagiário no programa EXXON-Stanford em catálise, orientado pelos doutores John Sinfelt e Robert Garten. Ao conhecer pesquisas e pesquisadores da companhia EXXON, não tive mais duvida de que a catálise é uma área com imensas oportunidades e aplicações.

Depois doutorado, dentre as oportunidades, escolhi a oferta especial do Instituto Militar de Engenharia (IME). A catálise no Brasil estava se iniciando e viver no Rio de Janeiro me-inspirou. A escolha foi bem recompensada. Os excelentes alunos do IME motivam os professores. E logo após chegou o Professor Roger Frety, com larga experiência em pesquisa. Desenvolvemos uma linha de pesquisa de interesse específico brasileiro: o craqueamento de óleo vegetal para obtenção de combustível diesel.

Após oito anos no IME, várias possibilidades sugiram: consultoria na Bahia e posições nas universidades, porém o mais atraente foi como pesquisador no Centro de Pesquisa da Petrobras (CENPES). Em 1985, iniciei pesquisas em catalisadores de craqueamento catalítico (FCC) fazendo um estagio na AKZO-CHIMIE: em um laboratório de um fabricante industrial, mas, que foi uma escola para mim. Parti da área de catálise por metais e entrei para a catálise por zeólitas.

Em 1990, o Dr. Leonardo Nogueira, Chefe do Setor de Desenvolvimento de Catalisadores (SEDEC) e mentor criador do grupo de catálise no CENPES se aposentou. Aceitei o desafio como seu sucessor,quando fui eleito pelos colegas. Reduzi, então, muito a colaboração com a comunidade de catálise: às universidades e à Comissão de Catálise (o precursor da SBCat). Só poderia ter uma prioridade: SEDEC. Aprendi muito: não somente na administração de pesquisa, mas a ser humilde. Aprendi como reconhecer os talentos e a dedicação de tantos colegas. Não devo citar nomes com medo de omissão.

Optei por voltar a ser pesquisador após três anos. Retornei a colaborar com a Comissão de Catálise, sob a liderança dinâmica do Prof. Martin Schmal. O grupo maduro de pesquisa em FCC estava colhendo frutos. Em 2002, realizamos a produção industrial de zeólita ZSM-5 com tecnologia inteiramente brasileira (Após ser compartilhada com Akzo-América, virou uma rota mundial). Novas rotas de preparo e novos aditivos foram desenvolvidos e colocados na prática. Iniciando com a pesquisa básica de um catalisador no laboratório e finalizando com sua aplicação nas refinarias da Petrobras, foi a realização de um sonho.

Por volta de 2006, a Petrobras criou numerosas redes temáticas para gerenciar o grande recurso para projetos de pesquisa junto às instituições nacionais. O gerente representante da área de catálise Oscar Chamberlain no CENPES designou-me o interlocutor técnico da Rede de Desenvolvimento de Catálise. Com a alta confiança da chefia, as grandes motivações das universidades e as experiências acumuladas na indústria, o intercâmbio Indústria-Universidade foi realizado com grande êxito. Criamos grupos de pesquisas em zeólitas, abatimento de emissões e incorporações de biomassa. Junto com os colegas do CENPES e das universidades ganhamos prêmios de invenção praticamente a cada ano, durante mais do que uma década.

Aposentei-me do CENPES em 2016 e mantenho colaboração com grupos de pesquisas industriais e acadêmicas. Agora estou com um novo paradigma: a vida não se trata do que já foi realizado, mas o que ainda está para ser realizado.

13 07 SBCAT Arnaldo Notícia2Formei-me em Química Industrial pela Escola Nacional de Química da Universidade do Brasil em 1968. Em 1969, ingressei na PETROBRAS para fazer o Curso de Engenharia de Processamento, CENPRO. Ao fim do curso fui lotado na então Divisão de Ensaios (DIVEN) do Centro de Pesquisas de Desenvolvimento da PETROBRAS, o CENPES.

Em 1972, montava o Dr. Leonardo Nogueira, no CENPES, um grupo dedicado a pesquisa e desenvolvimento em Catálise. Para formar o pessoal necessário, inexistente localmente, foi estabelecido, em parceria com o Instituto de Química da UFRJ, o Curso Avançado em Catálise e Processos Catalíticos (CAPROC), que valia como curso de Mestrado e era aberto a profissionais do CENPES e a estudantes do IQ/UFRJ. O CAPROC trouxe para o Brasil cientistas de grande renome na Catálise, como Herman Pines (Northwestern), Robert Burwell (Northwestern) e Michel Boudart (Stanford). Foi no CAPROC que cursei meu Mestrado e tive meu primeiro contato com a Catálise Heterogênea. Defendi minha Dissertação em 1975, sob a orientação de Leonardo Nogueira.

Em 1976 migrei para o recém-criado Setor de Catálise da agora Divisão de Tecnologia de Refino (DITER) do CENPES, onde integrei o grupo que desenvolveu o processo de fabricação de eteno a partir do etanol, que mais tarde deu origem a planta industrial implantada na fábrica da Salgema em Alagoas. Esta foi a época das crises do Petróleo, que conduziram o Brasil ao seu pioneirismo na área de Alcoolquímica.

Em 1978, o Setor de Catálise foi transformado em Divisão de Catalisadores (DICAT). Houve então grande esforço de aumento de capacitação técnica do grupo que constituiu a nova Divisão. Neste contexto, fui designado para desenvolver estudos de Doutorado no exterior, tendo escolhido, para tanto, a Universidade de Edimburgo, Escócia, onde ingressei em 1979 e permaneci até 1982, sob a orientação do Prof. Charles Kemball. Minha Tese de Doutorado foi escrita após meu retorno ao Brasil e defendida em 1984.

No meu retorno, fiquei lotado no Setor de Desenvolvimento de Catalisadores (SEDEC) da DICAT, onde coordenei o grupo que trabalhava no desenvolvimento de catalisadores para hidrorrefino, área em que permaneci até minha aposentadoria da PETROBRAS em janeiro de 1993.

Em 1994 ingressei no Instituto de Química da UFRJ, onde, além das atividades didáticas na graduação e pós-graduação, montei o Laboratório de Catálise Heterogênea, que dirigi até minha aposentadoria em 2019 e onde tive oportunidade de orientar 5 Trabalhos de Conclusão de Curso, 9 Dissertações de Mestrado e 10 Teses de Doutorado. Anteriormente, ainda como pesquisador do CENPES, já havia orientado 4 Dissertações de Mestrado, defendidas no NUCAT/UFRJ, IQ/UFRJ e DEQ/UFSCar.

Minha interação com a Comunidade de Catálise foi bastante intensa nos anos 80 e 90. Em meu retorno da Escócia, passei a integrar a Comissão de Catálise do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), que foi a precursora da Sociedade Brasileira de Catálise, criada em 1998. A Comissão de Catálise era constituída de representantes da Indústria, Centros de Pesquisa e Universidades de todo o país. Ela foi a organizadora dos oito Seminários Brasileiros de Catálise realizados entre 1981 e 1995 e do IX Congresso de Catálise, realizado em 1997, além de ser responsável pela edição de publicações relevantes para a comunidade de Catálise. Na Comissão de Catálise, tive oportunidade de participar como docente de diversos dos Cursos de Catálise por ela promovidos, coordenei a Comissão Organizadora do 4º Seminário Brasileiro de Catálise em Canela, presidi a Comissão Científica do XII Simpósio Ibero-Americano de Catálise em 1990 e fui Coordenador da própria Comissão de Catálise entre 1992 e 1995.

No período pós 1995 continuei a participar ativamente dos eventos promovidos pela SBCAT (Congressos Brasileiros, Simpósios Ibero-Americanos) como autor ou membro de Comissões Científicas.

Em 2017, durante o 19º Congresso Brasileiro de Catálise, tive a honra de ser agraciado com o título de Sócio Honorário da SBCAT.

20 07 SBCAT noticia DilsonO período de formação

Nasci em 1944 em Santos, linda cidade no litoral de São Paulo, descendendo de portugueses e espanhóis. Por um motivo que não consigo explicar, mas que moldou minha vida, desde a infância me deslumbrava com as cores. Como era possível existir tantas cores lindas? Como elas eram formadas?  Ingenuamente, achava que poderia descobrir isso extraindo-as das flores. Com água, sabão ou álcool. E foi assim que me envolvi com a química. Ao concluir o ensino médio, tínhamos bastante claro que queríamos estudar química aplicada. Com esse objetivo, em 1965 ingressei no curso de Engenharia Química da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Nessa época, e nos anos seguintes, o Brasil foi governado por Generais, motivo pelo qual, em 1970, decidi dar continuidade aos estudos no exterior. Depois de uma temporada no Chile, fui para a Alemanha e, em 1979 concluí o doutorado em eletroquímica orgânica, na Universidade Martin Luther, na cidade de Halle.

Da eletroquímica à catálise

Em Janeiro de 1980 regressamos ao Brasil, agora com esposa e dois filhos. Com muita sorte, em poucos dias fomos contratados como docente no Departamento de Engenharia Química da Universidade Federal de São Carlos (DEQ-UFSCar), para dar aulas de cinética e reatores químicos. Nesse ano iniciou-se um rápido aumento no preço do petróleo, matéria prima que o Brasil importava para atender a 100% das necessidades do país. Em busca de alternativas, criou-se incentivos para o desenvolvimento de processos que permitissem o uso do etanol como matéria prima, do qual já éramos grandes produtores. Isso despertou-nos o interesse em estudar a eletroquímica do etanol, tema novo que, no entanto, se revelou de difícil realização por falta de infraestrutura e de colaboradores interessados. O DEQ da UFSCar tinha na época cerca de 15 docentes e possuía uma excelente infraestrutura didática. O desafio daquele momento era aglutinar os docentes em grupos de pesquisa. Fomos então convidados para participar de um grupo de professores, liderado pelo Gilberto Della Nina, que se dispunha a estudar temas sobre catálise aplicada à alcoolquímica. Ficamos contentes com o convite, pois iriamos trabalhar em uma equipe (e não mais sozinhos) em tema que envolveria a aplicação do etanol. Respondemos então ao colega, algo que ficou bem marcante: “mas eu não tenho nenhuma experiencia em catálise”. E, de imediato, recebemos como resposta: “nós também não”. Foi assim que, lentamente, fomos nos envolvendo com a catálise, através da leitura, em grupo, de um dos poucos livros que dispúnhamos sobre o tema.

A formação de pessoal

O grupo de catálise se consolidou quando o Prof. Gilberto obteve um projeto no CNPq, com o objetivo de financiar estudos sobre a desidratação do etanol com aluminas catalíticas, para a formação do eteno e éter dietílico. Com os recursos desse projeto foi adquirido um equipamento para medir a área específica de sólidos e instalado o primeiro cromatógrafo a gás no laboratório do grupo. Animado com o novo tema de pesquisa, em 1981 orientamos o primeiro aluno de iniciação científica, no estudo da obtenção de hidróxido de alumínio, visando a produção de aluminas para a desidratação do etanol. Em 1983 nos credenciamos no Programa de Pós-graduação em Engenharia Química da UFSCar, orientamos o primeiro aluno sobre a preparação e emprego do óxido de magnésio na desidrogenação de etanol a acetaldeído e passamos a oferecer a disciplina “Introdução à Catálise Heterogênea”. Finalmente, em 1985, já mais seguros com a catálise, mudamos o rumo dos nossos estudos para a síntese e a aplicação catalítica de zeólitas e peneiras moleculares. Como não tínhamos experiencia com esse material, fizemos um estágio no laboratório do Prof. Jean Michel Guisnet, na Universidade de Poitiers, na França. Lá aprendemos muito sobre zeólitas com o pesquisador ítalo-venezuelano Giuseppe Giannetto. Desde então, continuamos estudando a síntese desses materiais micro e mesoporosos, com o objetivo de desenvolver neles propriedades ácidas, básicas ou bifuncionais, necessárias para terem atividade catalítica. Aplicamos essas peneiras em diversas reações (alquilação de aromáticos, isomerização de alcanos, esterificação e transesterificação) para a formação de vários produtos: para-xileno, para-dietilbenzeno, biodiesel, alcanos ramificados e ésteres alquídicos. Fruto desses trabalhos, formamos cerca de 80 pós-graduandos, mestres e doutores, os quais desempenham hoje atividades como pesquisadores em indústrias químicas ou como docentes em cerca de 20 universidades. A realização dessas atividades só foi possível graças ao apoio financeiro das agências de fomento à pesquisa (FINEP, FAPESP, CNPq) e à interação com indústrias, em especial com a Petrobras e outras empresas químicas (Oxiteno, COPENE, EDN). Os resultados desses trabalhos foram divulgados em cerca de 100 publicações em revistas indexadas, 200 apresentações em congressos científicos, e resultando na distinção em prêmios científicos.

Interação com a comunidade catalítica

Outro enorme prazer que tivemos em nos envolver com a catálise, foi que ela permitiu que desenvolvêssemos uma intensa interação com a jovem comunidade catalítica brasileira e com a comunidade ibero-americana. Nosso primeiro contato externo ocorreu em 1981, ao participarmos do “1º. Seminário de Catálise”, realizado no Instituto Militar de Engenharia (RJ), representando o grupo de catálise do DEQ da UFSCar. Na época, nosso envolvimento com a catálise era muito recente ano e ainda não tínhamos resultados para apresentar no evento. Estávamos lá como observador, para confirmar se tínhamos feito a escolha certa e conhecer os trabalhos de famosos catalíticos atuantes no Brasil, como Martin Schmal, Leonardo Nogueira, Roger Frety e Yiu Lau Lam, entre outros. Essa interação se intensificou ao participarmos das reuniões da “Comissão de Catálise” do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), empresa do Rio de janeiro responsável pela organização dos nossos eventos. A interação ampliou-se com a participação no recém criado “Grupo Regional de Catálise” do Estado de São Paulo. E teve seu auge em 1997, com a criação da “Sociedade Brasileira de Catálise”, concretizada no “9º. Congresso Brasileiro de Catálise”, realizado em Águas de Lindoia (SP). E tivemos imenso prazer em participar, junto com o Martin Schmal, da primeira Diretoria da nossa Sociedade. Em paralelo tivemos a oportunidade de interagir com colegas ibero-americanos, através do programa de catálise do CYTED (Ciencia y Tecnología para o Desarrollo), mantido pela Espanha. Como consequência, colaboramos na criação da FISOCat (Federação Ibero-americana de Sociedades de Catálise), de cuja primeira Diretoria participamos juntamente com o colega Carlos Apesteguia, da Argentina. Finalmente não podemos deixar de registrar que, através da participação na SBCat, estabelecemos uma forte amizade com os colegas Victor Teixeira da Silva (UFRJ) e Roberto Fernando de Souza (UFRGS), prematuramente falecidos.

Conclusões

A escolha da catálise como área de atuação profissional nos deu muitos prazeres: do ponto de vista científico, pelo enorme aprendizado que obtivemos, ao nos aprofundar  no seu estudo; do ponto de vista tecnológico, pela contribuição que ela nos permitiu dar, ao participarmos na resolução de algumas questões industriais; do ponto de vista pessoal, porque permitiu que contribuíssemos na formação de diversos jovens e que ampliássemos a interação com os colegas da comunidade científica brasileira e ibero-americana. Após 40 anos, continuamos nos dedicando a ela, no Departamento de Engenharia Química da UFSCar, na qualidade de Professor Sênior.

Clique AQUI para consultar o Lattes do professor. 

03 08 SBCAT 2020 Publicacao 2 Notícia1: Instituição: IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo

1.1 – Coordenação de uma Planta Piloto

Em 1978, o Eng. Kenji Takemoto já Pesquisador do IPT, foi convidado para gerenciar o projeto de uma planta piloto para desidratação do etanol para produção de etileno com o uso do catalisador de alumina ( Al2O3 ) da empresa japonesa JGC. O IPT ofereceu uma área coberta de 150m2 e os equipamentos de análises, reagentes, utilidades, materiais de laboratório. A JGC construiu a planta piloto e alocou o Eng. Quim. Tsunekichi Yamabe. A planta piloto iniciou a operação em julho de 1978 com 7 colaboradores do IPT, e rodou continuamente por aprox. 3 meses, para obtenção de dados básicos para o projeto de uma planta industrial, bem como acompanhar a desativação do catalisador. Vide Foto 1 a planta piloto.

 

Foto 1: Laboratório de Catálise: Planta piloto de avaliação de catalisadores em leito fixo

79.1.Lab.Cat.5.1.Planta Piloto de Aval.Catal

1.2 – Implantação do Laboratório de Catálise e atividades

No começo de 1979, a FINEP aprovou um projeto do Prof. Remolo Ciola “ Catálise & Alcoolquímica “ porém o Prof. Ciola pediu demissão como Consultor do IPT. Desta forma, fui convidado para a implantação. O projeto foi suportado por 2 pesquisadores da JGC através da JICA, Eng. Quim. Tsunekichi Yamabe e Quim. Masamitsu Niizuma.

O projeto FINEP foi radicalmente alterado para estabelecer no IPT um laboratório de catálise Industrial, isto é, um laboratório para dar suporte as indústrias químicas e petroquímicas na área de análise e caracterização de catalisadores, bem como no desenvolvimento e teste de catalisadores em micro reatores.

O IPT ofereceu uma área construída de 450 m2 e colocada nesta área: Escritório, Sala de caracterização e outras salas conforme as fotos abaixo.

Os trabalhos técnicos iniciaram com 11 colaboradores, os 2 pesquisadores da JGC e com a consultoria do Prof. Dr Martin Schmal da UFRJ.

Foram preparados diversos catalisadores em escala de laboratório: Al2O3, ZnO ( Óxido de Zinco ) como adsorvente de H2S ( Sulfeto de H2 ), Fe-Cr, Co-Mo, e outros.

Obs.: Face ao ótimo desempenho do adsorvente ZnO preparado em escala de laboratório ( 50 gramas ) na remoção do H2S em um micro reator contínuo, a seguir foram produzidos 4 lotes ( 1 kg cada lote ) de ZnO em escala piloto, as amostras testadas novamente em um micro reator continuo com resultados similares ao ZnO comercial. O IPT assinou um acordo de transferência da tecnologia deste ZnO com a empresa Oxiteno, a Oxiteno iniciou a produção comercial deste adsorvente ZnO em torno de 1984 vendendo este ZnO para as refinarias de petróleo, indústrias petroquímicas e químicas, onde o IPT recebeu da Oxiteno os royalties sobre a venda. Vide Foto 6 – Óxido de Zinco – ZnO, adsorvente de H2S ( produção em escala piloto ). Nesta época foram assinados também acordo de cooperação com a Eletrocloro - Sto André/ SP, Nitrocarbono – Camaçari/BA, etc,

Foto 2: Sala de Preparação de Matérias Primas e Conformação de Catalisadores

79.1.Lab.Cat.2.sala.Prep.MP e Conformação Copia

Foto 3 – Sala de Preparação de Matérias Primas e conformação de Catalisadores

79.1.Lab.Cat.1.sala.Prep.MP e Conformação Copia

Foto 4: Sala de Produção de Catalisadores em Escala Piloto

79.1.Lab.Cat.3.sala.Prod.Catal. Piloto Copia

Foto 5 - Sala de Avaliação de Catalisadores em Micro Reatores

79.1.Lab.Cat.4.1.sala. Aval.Cat. em Micro reatores

Foto 6 – Oxido de Zinco – ZnO, adsorvente de H2S ( produção em escala piloto)

79.Lab.Cat.6.1.Foto.Prod. Piloto ZnO pó e ZnO extrudado

2: Eng. Quím. Kenji Takemoto, a minha carreira na área da Catálise

Na Coordenação do Laboratório de Catálise do IPT desde 1979, participava das reuniões da Sub Comissão de Catálise e depois na Comissão de Catálise - IBP, bem como nas discussões técnicas e administrativas dos projetos em desenvolvimento. Fui aperfeiçoando o meu conhecimento como bolsista da JICA em 1982 por 1 mês no Centro de Catálise da JGC – Japão, e depois em 1983 por 1 ano no National Chemical Laboratory for Industries na cidade de Tsukuba – Japão.

Em 1987 fui convidado para trabalhar na Degussa ( atual empresa Evonik ) como Gerente de Tecnologia de Aplicação no Departamento de Catalisadores e inicialmente fiz um treinamento de 6 meses na Degussa Alemanha na área de catalisadores automotivos e químicos.

Atuava tecnicamente nas duas áreas. O Proconve ( Programa de Controle de Poluição do Ar por Veículos Automotores ) fase L-1 ( L = veículos leves ) de 1986 estava em vigor e a partir de 1992 a fase L-2 com a necessidade do catalisador de oxidação. Visitava as montadoras da época, obtendo informações sobre os novos motores e dados de emissões veiculares, transferia estas informações para a Alemanha e recebia da Alemanha amostras de catalisadores automotivos para testes nestas montadoras. Baseado nos testes, em 1990 a Volkswagen qualificou o catalisador automotivo da Degussa e depois viabilizou a assinatura de um contrato de fornecimento. Em 1991 a Degussa constituiu a empresa Newtechnos em Americana – SP. Vide Foto 7 – Amostras de suporte e catalisador automotivo. Com a nova empresa ( atualmente pertencente a Umicore ) dedicada para catalisadores automotivos, fui designado para focar o desenvolvimento do mercado de catalisadores químicos.

Foto 7 – Amostras do Suporte cerâmico e do catalisador automotivo

78.c3.1.Suporte e Catal. autom.Foto

A área de Catalisadores Químicos com estrutura “ Vendas & Produção & Tecnologia de Aplicação “ atuando homogeneamente e tendo um portfólio de catalisadores específicos a base de metais preciosos, as vendas cresceram baseada na tecnologia de aplicação do catalisador pela especificidade da reação catalítica do cliente. Esta atuação técnico-comercial atingiu o mercado externo e aumentou expressivamente o volume de vendas. É importante destacar a atuação global da empresa e o suporte advindo desta cooperação, agregando conhecimento e experiência profissional.

Por outro lado, a participação em eventos e Comissão de Catálise/SBCat, bem como o patrocínio dos CBCats e o fornecimento de amostras para as Universidades e indústrias fortaleceram mais o nome da empresa na sociedade catalítica. Esta sinergia da Evonik perante estas instituições contribuíram para o aperfeiçoamento científico e o interrelacionamento pessoal. Para apoiar a catálise no Brasil, desde o 12º CBCat em 2003 a Evonik patrocina o Prêmio “ Melhor Tese de Doutorado em Catálise “. Em 2005, no 13º CBCat fui agraciado com o Prêmio “ Catálise e Sociedade “. Em 2007, no 14º CBCat fui agraciado com o título de “ Sócio Honorário “. Em 2011, assumi por 2 anos a Presidência do Conselho Superior da SBCat.

Em 2011, já como Consultor, depois de vários contatos com empresas, através da Umicore viabilizei a vinda do Prof. Akira Suzuki, ganhador do Prêmio Nobel de Química em 2010 para ser um dos palestrantes do 14º BMOS que foi realizado de 1 a 5 de setembro em Brasília. O Prof. Suzuki estava no programa, porém a Coordenação estava com poucos patrocinadores. Além do admirável sucesso do Prof. Suzuki no 14º BMOS, depois veio especialmente a São Paulo para dar uma palestra para a comunidade Nipo-Brasileira, bem como para a comunidade científica no CRQ-SP com a palestra “ Suzuki Coupling Reactions and its Applications in Chemical Industries “.

Sou muito grato aos colegas das universidades, aos alunos, as indústrias, aos colaboradores da Degussa/Evonik e a SBCat pelo meu desenvolvimento profissional, e pela amizade e companheirismo construídos durante a minha vida pessoal e social.

10 08 SBCAT 2020 Publicacao NotíciaLá se vão 44 anos desde que escolhi a Engenharia Química como profissão, em 1977.  Que saudade! Na graduação, fui monitor na disciplina Controle de Processo, na qual aprendi a instalar os controles de uma planta piloto de produção de etanol, nos fundos do prédio da EQ/UFRJ. Porém, me entusiasmei pela catálise nas aulas show do professor, e amigo de sempre, Eduardo Falabella, que me convidou para desenvolver um trabalho em parceria com a indústria. Sempre tive vontade de aprender e realizar no campo, na planta industrial. Fui nessa. O tempo passou rápido e, em junho de 1981, terminei a graduação na UFRJ. Formei-me em 1981 e queria trabalhar na indústria. A crise (sempre há uma crise) e uma oferta imperdível mudaram meus rumos: fui contratado como engenheiro, em setembro de 1981, em um projeto da COPPETEC para ajudar no desenvolvimento de uma pilha alcalina a hidrogênio. Indescritível, top da ciência na época! Fiquei empolgado. E o salário era muito bom! De quebra, cursei, a partir de março de 1982, o Mestrado em Engenharia Metalúrgica e de Materiais na COPPE/UFRJ. O tema da dissertação foi “eletrodos de níquel Raney para a eletrocatálise do hidrogênio”. Defendi a dissertação em maio de 1984, sob orientação da saudosa professora Aída Spínola e uma plêiade na banca: Horário Macedo, Giulio Massarani e Oscar Rosa Matos. Enquanto finalizava a dissertação, fui contratado para um trabalho na Bahia: fazer a imobilização da a-amilase em celulose microcristalina em projeto de tecnologia para produção de álcool etílico a partir da mandioca.

Terminando o mestrado, caí no mundo e mandei o currículo para algumas empresas. Enquanto isso, o professor José Luiz Monteiro me chamou para ser bolsista de um projeto tecnológico na UFRJ. Medidas de fluxos em meio trifásico, utilizando radiação gama. Muito bom trabalhar com ele. Fiquei pouco tempo no projeto e fui selecionado, pelo Marco Ebert e o Fernando Lira, para a Copene (atual Braskem), em novembro de 1984. Era para ajudar na criação de um centro de tecnologia da Empresa na Bahia. Bom, perdi o primeiro “Rock in Rio”, em 1985, mas fiquei na Bahia, onde construí minha vida: família, trabalho e amigos.

Na Braskem, segui a carreira na catálise com pesquisa aplicada, visando ao entendimento dos catalisadores da empresa e, principalmente, à aplicação da catálise no processo industrial. Em 1986, fiz uma pós-graduação latu sensu em Cinética e Catálise, tendo professores como Levenspiel, Grange e Trimm e Ulf entre outros. Em 1987, fiz um treinamento no processo de reforma catalítica de nafta na Universal Oil Products (UOP), em Chicago e, em seguida, passei três meses no Instituto de Catálise e Petroquímica da Argentina (INCAPE), em Santa Fé, com o saudoso Prof. Jose Parera e o ilustre Prof. Carlos Apesteguia. Grande vivência com os hermanos e amizades eternas. Trabalhei com Pt-Re/Al2O3 na reforma de nafta, otimizando a acidez para as reações que ocorrem nos quatro reatores de leito fixo radial da Planta. Na bancada de laboratório, trabalhei com reatores diferenciais, integrais de leito fixo e reatores com reciclo interno (tipo Berty/Carberry), na preparação de catalisadores para o processo de isomerização de xilenos e etilbenzeno e desenvolvi um sistema para carregamento de catalisadores em reatores que aumentou em 20% a capacidades de várias plantas industriais. 

Em 1989 me envolvi com a gestão de PDI na Braskem, mas continuei na vida acadêmica fazendo o doutorado na Unicamp com o saudoso professor Mario Mendes, tendo um estágio na USP, com o fantástico professor Cláudio Oller e boas discussões com o Prof. Galo Le Roux. O assunto foi a modelagem cinética das reações de reforma catalítica de nafta. Nessa época, representei, por alguns anos, a Bahia na Comissão de Catálise do IBP e participei da reunião que decidiu criar a SBCat e lançar o Congresso Brasileiro de Catálise, em 1997.  Sob supervisão de Professor ícone Dilson Cardoso, ajudei na escrita do primeiro estatuto da SBCat. Saí da Braskem em novembro de 1996. Defendi a tese em janeiro de 1997, visando a um concurso para professor da UFBA, onde fiquei por 8 meses.

Em 1996, em Natal, aconteceu o 1º Encontro Regional de Catálise, brilhantemente organizado pelo amigo Prof. Antonio Araujo, da UFRN. Outros onze encontros aconteceram desde então, a cada dois anos, organizados por professores guerreiros, levando a motivação da catálise ao Nordeste, Norte e Centro Oeste do País. O próximo Evento será em Teresina, de forma virtual ou presencial, como o Covid determinar. Pude colaborar com esses Encontros, através da Rede de Catálise do Norte-Nordeste (RECAT) e do Instituto Brasileiro de Tecnologia e Regulação (IBTR). A RECAT marcou uma época! O apoio da FINEP, tendo em destaque o Rogério Medeiros e o Sérgio Alves, bem como a participação da Petrobras, nas pessoas de Oscar Chamberlain, Lam Lao e Rodolfo Roncolatto, permitiram que os pesquisadores em catálise dessas regiões se unissem trocando experiência e compartilhando infraestrutura.

O Congresso Brasileiro de Catálise foi hospedado várias vezes no Nordeste: em 1999, em Salvador, organizado pela Professora Soraia Brandão; em 2007, organizamos o evento em Porto de Galinhas, Pernambuco, em coorganização com a querida Profa. Celmy Barbosa e tendo Prof. Antonio Araujo na Comissão Científica; em 2015, levamos novamente para a Bahia, em Arraial d’Ajuda, Porto Seguro, onde fiquei responsável pela organização e a eficiente professora Maria do Carmo comandou a Comissão Científica.

Em meu caminho profissional, aceitei um convite do Prof. Manoel Barros, uma das pessoas mais marcantes em minha vida, para criar cursos de engenharia e consolidar a pós graduação, na Universidade Salvador (Unifacs), que despontou por suas características de inovação e investimentos na pós-graduação e na pesquisa. Com uma excelente equipe, em 20 anos, conseguimos trazer para a Unifacs nomes importantes das áreas de catálise, polímeros e adsorção, como os professores Roger Frety, Humberto Polli, Leila Aguilera, Antonio Osimar, Eledir Sobrinho, Luciene Carvalho e Elba Gomes entre outros. Em 2007, a convite da professora Silvana Mattedi, criamos um Doutorado em Engenharia Química, em associação ampla UFBA/Unifacs. A parceria continua desde então e muitos professores têm levado o curso a um alto patamar científico. Voltei à UFBA, como professor em tempo parcial, em 2011. Em julho de 2017, me fixei, definitivamente, na UFBA, como professor em dedicação exclusiva. Em 2018, recebi, com muito orgulho, o título de Professor Emérito da Unifacs e, em 2019, recebi da Presidente da SBCat, a incrível professora Sibele Pergher, o título de Sócio Honorário da SBCat. Emoção pura!

Sim, lá se foram 44 anos. Parece que foi ontem. Como é bom ser professor! A convivência com os jovens é muito rica. A pesquisa permite essa interação e me rejuvenesce.

17 08 SBCAT Vitor NotíciaEm 23 de junho de 2020, a SBCat lançou o “Quem Somos?” A ideia principal surgiu como forma de divulgar na sua página da internet um pouco da história de cada um de nossos pesquisadores. Acreditamos que um pouco desta história e de como a catálise mudou a vida de nossos pesquisadores, será um incentivo para jovens pesquisadores. Entretanto, muitos dos que ajudaram a construir nossa história já não estão entre nós, mas seu legado não pode ser esquecido. Por isso, vamos divulgar, uma vez por mês, o Quem Somos? In memoriam.

Vamos começar pelo Professor Victor Teixeira da Silva, presidente da SBCat entre 2015 e 2018, quando faleceu precocemente, no auge de sua carreira.

Quem Somos?

In Memoriam

Professor Victor Teixeira da Silva

"Victor Luis dos Santos Teixeira da Silva concluiu o doutorado em Engenharia Química pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1994. Atualmente é professor associado do Programa de Engenharia Química do Instituto Alberto Luiz Coimbra de pós-graduação em engenharia - COPPE da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Publicou 41 artigos em periódicos especializados e 51 trabalhos em anais de eventos. Possui 3 livros publicados. Possui 2 produtos tecnológicos e outro 1 item de produção técnica. Participou de 12 eventos no exterior e 9 no brasil. Orientou 31 dissertações de mestrado e 16 teses de doutorado nas áreas de química e engenharia química. Atualmente coordena 10 projetos de pesquisa. Atua na area de engenharia química, com ênfase em petróleo e petroquímica. Em suas atividades profissionais interagiu com 66 colaboradores em coautorias de trabalhos científicos. Em seu currículo lattes os termos mais frequentes na contextualização da produção cientifica, tecnológica e artístico-cultural sao: hidrodessulfurizacao, catalisadores de hdt, hdt, temperature-programmed carburization, carbeto de molibdenio, hidrotratamento, alumina recoberta por coque, hidrotreating, hydrotreating e drx."

O texto em negrito, tirado do currículo lattes, pode ser acessado AQUI e comprova toda a trajetória de sucesso desse profissional exemplar. Como presidente da SBCat entre 2015 e 2018, foi dinâmico, incansável, iniciou a reformulação da página, criou o prêmio Arrhenius para incentivar os alunos a participarem dos CBCats e, hoje Prêmio Victor Teixeira da Silva. Sempre preocupado em prestigiar os construtores dessa nossa comunidade criou um quadro para homenagear os sócios por ocasião dos 20 anos da SBCat. Victor, foi, sem dúvida, o elo que juntou a atual diretoria, da qual faço parte com muito orgulho.

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Descrever o profissional exemplar é fácil pois sua obra pode ser encontrada na plataforma lattes, nas bases de busca científica, nos depoimentos de profissionais de diferentes áreas e comunidades, nacionais e internacionais, mas falar do amigo, ainda é muito difícil porque as lembranças são muitas, alegres, engraçadas, tensas, pois sempre queria tudo para ontem, mas a saudade do irmão de coração ainda me faz chorar.

Como ele repetiu várias vezes, seu maior orgulho era ser professor e, nada mais justo, do que deixarmos registrado o texto escrito em sua homenagem por dois de seus alunos.

Eu não estou longe,

apenas estou

do outro lado do Caminho…

Você que aí ficou, siga em frente,

a vida continua, linda e bela

como sempre foi.”

(Santo Agostinho)

Maria Auxiliadora Scaramelo Baldanza (Dora)

Victor Luis dos Santos Teixeira da Silva (Texto de Melyssa Soares de Souza e Thiago Miceli, em nome de todos os alunos)

Nascido em 19 de junho de 1964, na Angola, aos 12 anos desembarcou no Brasil, trazendo muitos sonhos na mala. Em Petrópolis, na cidade imperial, cresceu, constituiu família, e viveu até o fim dos seus dias. Quando criança, queria ser arqueólogo. No vestibular, em 1981, optou por engenharia química, sem saber explicar muito bem o porquê. Passou para o primeiro semestre na UFRJ, na Ilha do Fundão, e desde então subia e descia a serra diariamente de ônibus. No sexto período conheceu aqueles que mudariam sua trajetória profissional para sempre: o professor Peçanha, que o direcionou para a pesquisa, e o professor Schmal, que o apresentou à catálise. Durante a graduação, recebeu ofertas de estágio e emprego, mas as recusou, priorizou a iniciação científica e queria fazer o mestrado. Em 1989 iniciou sua carreira como pesquisador, ao ingressar no mestrado no programa de engenharia química da COPPE, durante o qual conheceu o Oyama, forte influenciador de sua carreira e o responsável por apresenta-lo aos carbetos. Seguiu no doutorado na mesma instituição, realizando parte do trabalho nos Estados Unidos, e obtendo o título em 1994. Em 1997 alcançou o que dissera ser seu maior sonho: ser professor universitário, dar aula, fazer pesquisa e orientar. Nessa carreira, tornou-se espelho de muitos alunos e criou grandes profissionais, compartilhando não só os ensinamentos formais, mas deixando lições para a vida. Apaixonado pela profissão, dissera que seus alunos eram motivo de grande orgulho, e que aprendia mais com eles do que ensinava. Foi professor no IME de 1997 a 2006, e a partir de 2006 passou a lecionar na COPPE e ser coordenador administrativo do NUCAT. Em 2017 assumiu a coordenação do Programa de Engenharia Química. Deixou esposa, irmã, dois filhos biológicos e muitos filhos acadêmicos. Foram 57 orientações concluídas e 20 em andamento. O respeito e carinho de profissionais de todo o mundo comprovam sua trajetória de sucesso e sua enorme contribuição dada ao meio acadêmico. Inúmeras mensagens de condolências foram recebidas pelo motivo do seu falecimento. Dentre suas atribuições citadas pelos colegas, a gentileza e bom-humor foram as mais comuns. Ele sempre tinha algo engraçado para dizer, sobre qualquer assunto. Falava com todos, estava sempre disposto a ouvir e ajudar. Sua mente estava sempre trabalhando, buscando novas ideias para trabalhos e projetos para o laboratório. Era um professor muito dedicado aos seus alunos e apaixonado pelo que fazia, sempre se esforçando para que as aulas fossem mais leves e agradáveis e fazendo o possível para garantir que todos entendessem o que estava sendo passado. Estava sempre disponível para tirar dúvidas ou para bater papo. Muito organizado e metódico, dava o melhor de si para que as coisas dessem certo. Como herança aos que ficaram, deixou seu exemplo de esforço e dedicação ao trabalho, e seu cuidado e empatia com os demais.

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quem24 08 SBCAT Noticia SoraiaMeu interesse pela Catálise surgiu durante a iniciação científica, sob orientação da Profa. Adelaide Viveiros (IQ-UFBA), e nos estágios do curso de Engenharia Química da UFBA, na Oxiteno/ Setor de Engenharia de Processos (Camaçari, BA), e na COPENE (atual Braskem)/ Divisão de Pesquisa em Catálise (DICAT), sob supervisão da Dra. Maria Isabel Pais da Silva, atualmente, professora de Engenharia Química da PUC-RJ. A participação em um curso extracurricular sobre fundamentos em Catálise heterogênea, em 1986, também foi importante para a definição da futura área de atuação profissional, a pesquisa em Catálise.

No final do curso de graduação em Engenharia Química (junho de 1988) fui aprovada na seleção para o curso de Especialização em Petroquímica da Petroquisa (CENPEQ) e na Seleção para o curso de Especialização em Petroquímica, oferecido pela Universidade de Bolonha (UNIBO), em parceria com o grupo ENI (empresa de petróleo italiana) e financiado pelo Ministério das Relações Exteriores Italiano. Vislumbrando atrelar uma boa formação acadêmica a uma experiência internacional, optei pelo curso de especialização oferecido pela Universidade de Bolonha/ENI, uma das mais tradicionais instituições de ensino, fundada no ano de 1088.

Durante a disciplina de Cinética e Catálise, ministrado pelo Prof. Ferruccio Trifirò (UNIBO), renomado pesquisador em Catálise para Oxidação, houve o convite para realizar o trabalho de conclusão do curso de especialização no seu grupo de pesquisa. Assim, em janeiro de 1989 iniciei o estágio em pesquisa, no Departamento de Química Industrial da UNIBO, sob a supervisão do Prof. Gabriele Centi (atualmente na Universidade de Messina), sobre a Oxidação seletiva de n-butano utilizando catalisadores heteropolicompostos.

Ainda em 1989, houve a possibilidade de prestar seleção no doutorado no Politecnico di Milano (POLIMI), Dipartimento Giulio Natta, no grupo de pesquisa em Catálise, coordenado pelo Prof. Pio Forzatti. Ao ser aprovada na seleção, iniciei o doutorado em setembro de 1989 sobre o estudo de catalisadores perovskitas na reação do acoplamento oxidativo do metano, visando a conversão direta do metano em etileno, sob orientação do Prof Pierluigi Villa e coorientação do professor Luca Lietti.

Com o apoio da bolsa de estudos italiana, houve a possibilidade de apresentar os resultados em congressos prestigiosos em Catálise, como o 10th International Congresso in Catalysis (ICC), em Budapest (1992), o que na época só era factível para pouquíssimos pesquisadores brasileiros consolidados. Nestes congressos foi possível discutir resultados e ter novas ideias para a tese. Durante o doutorado houve também interação com o Centro de Pesquisas da Snamprogetti (atualmente SAIPEM), vivenciando a pesquisa tecnológica. Interessantes resultados foram obtidos, e foi depositada uma patente industrial pela Snamprogetti envolvendo alguns dos catalisadores sintetizados durante o doutorado, além da publicação de artigos científicos.

Após a defesa de doutorado em 1993, fui contratada como pesquisadora, pela empresa Becromal SpA (Milão) para o desenvolvimento de materiais utilizados na fabricação de capacitores eletrolíticos. A Becromal é um dos maiores produtores mundiais de folhas de alumínio, a principal matéria-prima utilizada para a construção de capacitores eletrolíticos de alumínio, garantindo a funcionalidade de quase todos os circuitos eletrônicos e aparelhos elétricos, incluindo aplicações em energias renováveis (eólica, solar) e todos os tipos de fontes de alimentação.

Em 1994 houve um convite para participar de um concurso no Instituto de Química da UFBA, e a possibilidade de retornar à casa após tantos anos no exterior, foi um misto de alegria e desafio, em função da discrepância entre as condições de trabalho em pesquisa. Em junho de 1994 fui aprovada no concurso para professor Adjunto no Departamento de Química Geral e Inorgânica, do Instituto de Química da UFBA (IQ-UFBA). Assim, aceitei o desafio, finalizei minhas atividades na Becromal SpA, em dezembro 1994, e ingressei na UFBA em janeiro de 1995.

No período de 1995 a 1997 integrei o grupo de pesquisa em Catálise do IQ-UFBA, atual LABCAT, coordenado pela Profa. Heloysa Andrade, a quem agradeço a oportunidade propiciada. Com a aprovação do primeiros projeto de pesquisa em 1997, na área de Catálise para polimerização utilizando catalisadores metalocenos, obtive espaço físico, e com outros docentes IQ-UFBA, a Profa. Zênis Novais, a Profa. Maria Luiza Corrêa e o Prof. Emerson Salles, foi criado o Grupo de pesquisa em Catálise e Polímeros (GCP), que coordeno desde sua criação, em 1997.

Coordenei vários projetos de pesquisa, CNPq, FINEP, FAPESB, alguns em parceria com a indústria (Braskem e Petrobras) que propiciaram a instalação de uma considerável infraestrutura para a pesquisa em Catálise no GCP, além da criação do Laboratório de raios X e microscopia do IQ-UFBA. Durante as pesquisas em Catálise para polimerização, tivemos a colaboração do saudoso e competente Prof. Roberto Fernando de Souza e do Prof. João Henrique Zimnoch dos Santos (IQ-UFRGS). Ressalto também a importante colaboração da Profa. Simoni Margareti Plentz Meneghetti e do Prof. Mario Roberto Meneghetti (UFAL).

Atualmente estou envolvida, prioritariamente, em pesquisas referentes ao desenvolvimento de catalisadores para obtenção de hidrogênio, combustão catalítica, e conversão de biomassa e de óleos vegetais.

Atuo nos Programas de Pós-graduação em Química (PGQUIM) e Engenharia Química da UFBA (PPEQ) tendo formado 24 mestres, 12 doutores, e mais de 50 alunos de IC e ITI. Dois ex-alunos, a Profa. Lílian Simplício e, recentemente, o Prof. Denilson Costa, foram aprovados em concursos no IQ-UFBA, e integram o GCP. Outros ex-alunos ingressaram em instituições de ensino como UFRB, IFBA e SENAI e na Indústria (Braskem). Ter auxiliado na formação destes profissionais me orgulha profundamente, pois representam nosso futuro!

Coordenei a organização do 10º Congresso Brasileiro de Catálise (CBCat), em Salvador (1999), contando com o apoio do Prof. Luiz Pontes e da Profa. Heloysa Andrade, ambos grandes entusiastas que ajudaram a disseminar a Catálise pelo Nordeste. Participei das comissões organizadoras de vários CBCats e dos encontros regionais da regional 1, os ENCATs.

Realizei estágios de pós-doutorado sobre preparação de catalisadores estruturados, com o Dr. Pedro Ávila e a Dra. Ana Bahamonde, no ICP-CSIC (Madri); experimentos in situ de combustão catalítica, com os professores Luca Lietti e Gianpiero Groppi (POLIMI) e caracterização de catalisadores por HRTEM, com o Prof. François Bozon-Verduraz (ITODYS, Paris 7).

Fiz parte da Diretoria da SBCat, e do Comitê científico da Rede Nacional de Combustão (RNC), da Rede Nacional de Hidrogênio e da Rede de Catálise do Norte e Nordeste (RECAT). As atuações em redes foram muito importantes por aumentarem o intercâmbio com outros pesquisadores e consolidar as linhas de pesquisa do GCP.

Dentre os colaboradores de outras instituições gostaria de lembrar do saudoso e competente, Prof. Victor Teixeira da Silva (NUCAT-COPPE), a quem carinhosamente chamava de primo, com quem coordenei um projeto CAPES/CNPq-PROCAD. Ressalto as colaborações com o Dr. Fabio Bellot Noronha e Dr. Marco André Fraga (INT), Dra. Cristiane Rodella Barbieri (LNLS-CNPEM), Profa. Elisabete Assaf (USP-São Carlos), Prof. José Geraldo (UFPE), Profa. Marluce da Guarda (UNEB) e o Prof. Carlos Augusto Pires (DEQ-UFBA). Destaco a colaboração do Prof. Roger Fréty (atualmente professor visitante, DFQ-UFBA), grande pesquisador francês, que muito ajudou a implantar a Catálise no Brasil.

Mantenho ainda fortes parcerias com instituições italianas, em especial o POLIMI, onde um competente ex-aluno, o Dr. Roberto Batista da Silva Jr. está atuando como pesquisador visitante; e o Instituto Italiano de Pesquisas em Combustão (CNR-IRC, Nápoles), com o Dr. Stefano Cimino e a Dra. Luciana Lisi.

Foram muitos anos de trabalho árduo e conquistas! Agora os desafios são maiores, mas seguimos em luta pela Ciência!

08 09 SBCAT Noticia GeraldoNarcisoNão gostaria de usar este espaço para colocar apenas informações como se fosse um CV, mas mais para contar um pouco como iniciei e um pouco da minha trajetória com a preocupação maior de levar uma mensagem aos jovens: de que mesmo com todas as dificuldades é possível se construir algo, por mais que pareça impossível. A construção de um sonho leva anos, décadas e você pode nem mesmo vê-lo consolidado, mas não importa, o importante é contribuir. Sou graduado em Química Industrial pela Universidade Federal do Pará (1978) e Mestre em Ciência e Tecnologia de Polímeros pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1985). O meu verdadeiro contato com a Catálise se deu ao iniciar (1989) o meu Doutoramento na Université Pierre et Marie Curie - Paris/França, hoje Université Sorbonne, sob a orientação do Professor Gérald Djega-Mariadassou. A temática da tese foi toda voltada para a obtenção de combustíveis renováveis a partir de óleos vegetais usando catalisadores heterogêneos. Na época, todos os grupos importantes no Brasil em Catálise estavam situados nas regiões Sudeste e Sul. O Nordeste já contava com alguns grupos, mas na sua maioria, ainda formados por jovens pesquisadores.

A Catálise no Brasil foi desenvolvida em cima de trabalhos ligados a Indústria do Petróleo. Tendo isto em mente, ao terminar o Doutorado e com a obrigatoriedade de retornar ao Brasil e à minha Universidade de origem (Universidade Federal do Pará) surgiram várias perguntas extremamente inquietantes: Como desenvolver trabalhos com catálise heterogênea em uma região e em uma Instituição onde toda a pesquisa era voltada para Produtos Naturais? Como desenvolver trabalhos com catálise em uma região sem massa crítica e nem infraestrutura apropriada para trabalhos na área? Como conseguir financiamento para projetos em Catálise em um Estado que nunca produziu petróleo? A partir destas constatações tomamos a decisão de lutar para que a catálise tivesse um lugar na região ou pelo menos na Instituição. Ao longo destes quase 30 anos tivemos várias vitórias, mas também muitas derrotas. Das vitórias, criar um grupo de catálise voltado para o desenvolvimento de catalisadores para obtenção de combustíveis renováveis e produtos químicos de alto valor agregado com uma infraestrutura mínima para desenvolver trabalhos na área e a formação de dezenas de profissionais que hoje desenvolvem atividades nesta e em outras instituições, profissionais estes que terão como responsabilidade levar a catálise a um patamar mais elevado que o alcançado até o momento. Sem dúvidas, consideramos que somos parte da construção de algo e que teremos que lutar por gerações para termos grupos de pesquisa consolidados e com reconhecimento Nacional e Internacional em Catálise na Região Amazônica. A minha geração foi a partida e aos que vêm, o céu é o limite! Obrigado.

14 09 SBCAT Noticia RuthRuth formou-se em Engenharia Química pela Escola Nacional de Química em 1958. Obteve seu título de Mestrado em 1977 no Instituto de Química da UFRJ, sob a orientação do Dr. Leonardo Nogueira, e o Doutorado em 2004 no NUCAT/COPPE/UFRJ sob orientação do Prof. Martin Schmal.

Ingressou no CENPES/PETROBRAS em 1972 onde atuou até sua aposentadoria 1991. Após sua aposentadoria foi uma colaboradora atuante nas pesquisas desenvolvidas pelo Núcleo de Catálise do Programa de Engenharia Química da COPPE/UFRJ com um número expressivo de publicações.

Ruth especializou-se em Espectroscopia Vibracional, tendo-se tornado referência nacional nestas técnicas espectroscópicas, principalmente aplicadas à caracterização de catalisadores. Mesmo tendo trabalhado, em grande parte de sua vida profissional, num centro de P&D cativo de empresa, sempre foi muito atuante e colaborativa na comunidade de catálise, o que levou a SBCAT a conceder-lhe em 2003 o título de Membro Honorário da Sociedade.

Ruth faleceu em janeiro de 2017, tendo deixado muitas e boas lembranças em todos aqueles que tiveram o privilégio de disfrutar de sua convivência, social ou profissionalmente, graças a sua afabilidade no trato pessoal e competência e seriedade profissionais.

Como reconhecimento de sua importância na comunidade catalítica do Rio de Janeiro e do país, a Regional 2 da SBCAT instituiuem 2018 o Prêmio e Medalha Ruth Leibsohn Martins, conferido a um profissional ou estudante, da região de abrangência da Regional 2, não só pelas suas contribuições para o avanço da catálise, mas também por suas atividades altruístas, em termos de boa interação e ajuda a colegas, subordinados e o público em geral. O Prêmio foi conferido pela primeira vez à Dra. Lúcia GorenstinAppel do INT, durante o 3º Encontro de Catálise da SBCAT Regional 2.

31 08 SBCAT 2020 Publicacao NotíciaEduardo Falabella Sousa-Aguiar é carioca, engenheiro químico pela Escola de Química/UFRJ, com mestrado e doutorado em Catálise. De uma família de professores universitários, o lema em sua casa era “mens sana incorpore sano”. Seu bisavô, seu avô, e seu pai, Edmo Costa Sousa-Aguiar, eram arquitetos. Eduardo diz que se tornou engenheiro químico “por teimosia”.O influenciaram seu primo e padrinho, Edgard Sousa-Aguiar Vieira, engenheiro químico e PhD, e sua tia e madrinha Maria Helena Falabella, química e geóloga. Também foi de grande importância sua mãe, Maria Arminda Falabella Sousa-Aguiar, renomada professora de Literatura Francesa da UFRJ, que forjou seu gosto pelas letras.Era estudioso, mas também atleta. Foi nadador, campeão carioca dos 200m borboleta, tendo competido em campeonatos interestaduais e no exterior. A natação lhe proporcionou o sentido de disciplina, o que o ajudou na sua carreira de pesquisador.

Ao se graduar, ingressa, com sua amiga e Professora Emérita da UFRJ Adelaide Maria de Souza Antunes, no Mestrado do PEQ/ COPPE.Monitor do Prof. Martin Schmal, seu mentor e amigo, deve a ele seu interesse pela Catálise. Em 1978, ocorre o VI Congresso Ibero-americano de Catálise, presidido porSchmal. Colabora na organização e interagecom os professores David Trimm e Heinrich Noller. O curso do Prof. Noller sobre Catálise Ácido/Base revela um novo mundo para ele. Presta um concurso de bolsas do governo austríaco, tira primeiro lugar e ganha uma bolsa para estagiar na TechnischeUniversität Wien.

Antes, faz concurso para docente da área de Cinética e Termodinâmica da Escola de Química. Tira primeiro lugar, tornando-seProf. Assistente. Ingressa como membro da Comissão de Catálise do IBP, ajudando a organizar os primeiros Seminários de Catálise, em 1981 e 1983. Em 1985, é escolhido presidente do III Congresso Brasileiro de Catálise, em Salvador.
É contratado para trabalhar no CENPES. Vai para a Holanda, em 1985, para proceder à Transferência de Tecnologia da AKZO CHEMIE para o novo empreendimento. Ao voltar, em 1986, ajuda a instalar a Fábrica Carioca de Catalisadores, passando a trabalhar com o processo de síntese e modificação de zeólitas na planta. “Nada se iguala ao prazer de ver chegar à indústria uma rota que você idealizou, testou em laboratórioe fez o scale-up em planta piloto. Poucos têmessa realização, e eu a tive. Atuar na FCCSA fez toda a diferença na minha carreira profissional.”

Nunca abandona a docência.Diz: “toda universidade deveria ter professores em tempo parcial, que tenham vivido no mundo não-acadêmico”.Com o Prof. José Luiz Monteiro, orienta várias teses. Na FCC, colabora como saudoso Jorge Gusmão,publicando muitos artigos.Recebe o prêmio Governador do Estado de São Paulo por sua patente internacional sobre zeólitas fosfatadas. Criao conceito de acessibilidade e, com Maria Letícia Valle,patenteiao teste de craqueamento com triisopropilbenzeno.São dessa época as teses de excelentes alunos como Pedro Arroyo, Eledir Sobrinho, Celmy Barbosa, Marcos Pinhel, Lindoval Fernandes, José Marcos Ferreira, Henrique Cerqueira, Débora Forte, Maria Angélica Barros, Alexandre Leiras, Valmir Calsavara, Flávia Trigueiro, Cristina Hamelmann, Ricardo Pinto, Mirna Rupp e outros. Tais trabalhos muito contribuíram para o desenvolvimento da área de zeólitas no Brasil, formando profissionais que hoje atuam na Academia, na Indústria e no Governo.

Passa a integrar o programa internacional CYTED como ponto focal do Brasil no projeto sobre o desenvolvimento de uma zeólita A. A partir desse projeto, participa de diversos eventos do CYTED em 10 países, ministrando cursos.Por meio do CYTED, é convidado a integrar o SteeringCommitteedoInternational Centre for Science and High Technology da UNIDO/ONU, em Trieste, Itália. Como membro desse importante comitê, participa de inúmeras reuniões técnicas e de muitas publicações do ICS, sendo docente de vários cursos em diversos países. Organiza, em 1999, o International Workshop onCatalysis for Fine Chemistry, com mais de uma centena de pesquisadores de vinte países.

Dedica-seà síntese de Fischer-Tropsch. Passaa gerenciar, no CENPES, um grupo inovador intitulado Célula GTL que reunia especialistas da síntese de catalisadores à engenharia básica. Tal grupo gerou patentes e trabalhos científicos, sendo pioneiro no desenvolvimento de reatores de microcanais no Brasil.Começa uma importante colaboração com os professores espanhóis Mario Montes e José AntonioOdriozola. É eleito, com Martin Schmal e Fábio Bellot, presidente do 8th Natural GasConversionSymposium em Natal, 2007. Idealiza e cria, com apoio da Petrobras, a Rede Brasileira de Transformação Química de Gás Natural, que congregou mais de 70 pesquisadores de várias regiões do Brasil. Junto àilustre pesquisadora do INT Lúcia Appel, desenvolve um combustível alternativo, o dimetiléter erecebe o prêmio nacional da ABIQUIM.

Eduardo Falabella pode ser considerado um embaixador da Catálise brasileira e um desbravador. Primeiro brasileiro a proferir uma conferência plenária em um Congresso Ibero-americano (Cartagena, 1998),único sul-americano a ministrar uma Keynote convidada no 13th InternationalCongressonCatalysis, Paris, 2004, abriuum caminho para brasileiros. Em 2010, em Sorrento, Itália, foi eleito membro do CounciloftheInternationalZeoliteAssociation. Pela primeira vez um sul-americano ocupava tal posição. Foi escolhido para presidir a InternationalZeoliteConference, trazendoesse evento para a América do Sul, no Rio de Janeiroem 2016.Destaca a colaboração de seus amigos Claudio Mota, Cristiane Henriques e Heloise Pastore, sem cuja presença o congresso não teria sido realizado.
Começa a trabalhar em biomassanos anos 90, na tese de sua amiga e atual Professora Titular da UFPE, Celmy Barbosa. Recentemente, orientou teses em colaboração com o amigo Nei Pereira Jr., Professor Emérito da UFRJ, combinando Catálise Heterogênea com Catálise Enzimática. Declara que orientar alunos brilhantes como João Monnerat, Pedro Romano, Yuri Carvalho e Caio Rabello, ecolaborar com o querido Professor Donato Aranda, lhe deu ânimo para produzir mais. Suas publicações em conversão de biomassa o levaram a conferencista plenário no 1stInternationalCongressonCatalysis for biorefineries (CATBIOR), em Málaga, Espanha e no 2ndCATBIOR, em Dalian, China. Organiza o 3rdCATBIOR com a ajuda de Claudio Mota, Lucia Appel, Cristiane Henriques e Rochel Lago, no Rio de Janeiro, em 2015, gerando um volume da CatalysisToday.

Recebeu muitas condecorações. Destacam-se o Plínio Cantanhede, em 1994, o Governador Estado de São Paulo, em 1998, a Retorta de Ouro, em 2000, o prêmio Catálise e Sociedade em 2005, o Prêmio Nacional de Tecnologia da ABIQUIM, em 2008,e a Medalha Lavoisier do CRQ,em 2012.Recebeu, em 2013, o prêmio internacional James Oldshue do American InstituteofChemicalEngineers por sua contribuição à Engenharia Química Mundial. Em 2014, foi agraciado com o prêmio máximo da SociedadIberoamericana de Catálisis como investigador sênior. Em 2017, após proferir várias conferências convidadas na China, recebeu o título de Honorary Professor da China UniversityofPetroleum, Qingdao.

É Professor Titular do Departamento de Processos Orgânicos da Escola de Química da UFRJ. É poeta e contista premiado e está terminando seu primeiro romance. Segundo suas palavras, “a vida me deu muito; uma companheira (Christina) de todas as horas, um filho e uma nora dedicados, uma profissão que adoro“.

“Quem é Eduardo Falabella Sousa-Aguiar? Descobri, há anos, que não sou santo ou demônio, rei ou vassalo, sábio ou tolo. Sou, e tão somente, poeta. A poesia é a asa fugidia que me alça, a vela panda que me embala e impele. Na poesia sou corsário implacável a singrar mares não pacíficos, sou gaivota atrevida a mergulhar impune em canais gelados. Sou o nadador que descobre o pouco que importa quer se perca ou ganhe, quando se consegue beber a espuma das pernas dos primeiros sentindo nela um suave gosto de champanhe. Sou aquele que pretende iluminar as trevas de estradas não-trilhadas com enxames de vagalumes, que flutua indolente nas vagas tépidas de um mundo de sonhos, amando de forma indistinta e universal. Sou poeta e me orgulho disso. Sei que um dia me calarei. Mas até lá, permitam-me exercer meu canto, que não assusta nem fere. Entendam meu silêncio quando as sombras me inundam, abracem meu riso quando a luz me invade. E, sobretudo, aceitem esse homem que só quis ser ele mesmo...”

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